RIO DE JANEIRO
Resolvi descobrir quantos centros eu encontrava ha trezentos metros de onde estou, tracei entao ao norte, ao sul, a leste e a oeste um raio onde eu sairia com minha camera fotográfica para desbravar a gema. Assim fiz. Já na Praça Tiradentes algumas informações, o local é erroneamente conhecido por ter sido o local de enforcamento de Tiradentes, na verdade a historia conta que o mártir foi enforcado na Rua Passos esquina com a Avenida Passos. O pelourinho ainda é demarcado com uma escultura bem no centro da praça, que é cercada por grades e trancada no período da noite. No século passado esta praça e seu entorno eram muito frequentado e era caminho para os bondes cariocas. Em duas esquinas da praça estao os teatros mais importantes da cidade do Rio de Janeiro: Teatro Carlos Gomes e Teatro Joao Caetano, emblemáticos da historia cultural fluminense. O centrão aqui é frequentado por mendigos, pedintes, meretrizes e o submundo em geral.

a Seguindo pela Rua do Teatro, encontro o CCC - Centro Carioca de Cultura, certa vez dirigido pelo meu grande amigo Marcelo Ribas, em frente ao predio fica o Largo de São Francisco, onde no ano passado eu toquei dentro do Festival Panorama de Dança, o entorno conta com construçoes coloniais mal cuidadas, pixadas e com cheiro de urina e fezes em muitas partes, vi este cenário se repetir em outros momentos nessa minha caminhada dos trezentos metros! Aqui encontra-se o Largo das Artes que faz parte da revitalização social e urbana em curso atualmente no centro antigo da cidade.


Seguindo reto encontro ruelas lotadas de gente comprando; as lojas bem cheias me remeteram à 25 de Março na capital Paulista, é bem aquilo mesmo, muvuca e produtos que vão de imãs de geladeira de um real a luminárias e móveis de três mil reais, a unica coisa que me encheu a paciencia aqui foram as vuvuzelas e outros infernos futebolísticos que sao tocados a todo tempo para chamar clientes, no meu caso serviu para fazer o oposto, saí dalí bem rápido para me livrar dos apitos e cornetas.


Trezentos metros em outra direção chego a Rua do Lavradio, ruela lotada de bares, butecos e restaurantes, os bancos ficam proximos daqui também e daqui em diante já começam a me dizer que o bairro vai mudando de nome e começa a se chamar Lapa, como não sou daqui, aceito a informação e sigo andando no Lavradio.No centro da cidade e em outras partes, as placas tem luzes internas (backlight) e acendem quando o sol se põe, o efeito é muito bonito e util para quem procura um endereço essa hora.


Essa construçao eu nao sei o que é exatamente, mas está no Largo da Carioca, onde fica a estaçao do metrô assim como diversas barraquinhas vendendo cds, dvds, sebo de livros e muito mais. Meu olhar sempre busca essas construções velhas embora estejam maltratadas. Esse pedaço do Rio de Janeiro me deixou com a certeza de que no nosso país a história não dá dinheiro. Fico me perguntando se nao há incentivos para a manutenção dos espaços do centro velho e para a educação da população em relação à bela cidade que têm nas mãos. O Rio de Janeiro nao é só Copacabana. Para fechar esse meu rápido mas produtivo passeio de trezentos metros, eu mostro a você essa placa presa num prédio aqui do centro, que diz, “Halloween é Satanismo!” Metros atras eu havia visto uma placa sendo erguida por um fervoroso religioso que dizia “Voce merece ir para o inferno”. Coisas de uma capital que encanta pela diversidade e pelo volume.Durmo cansado, na Dama de Ferro desse país.


Diário de Viagem: 15 de Junho : Primeiro Dia no Rio de Janeiro
Estranho escrever de um lugar que você ja conhece, pouco, bem da verdade, mas já! Estive aqui, ouvi e degustei. A gema desse ovo carioca é assim para mim agora, um lugar revisitado. Por isso mesmo vou me ater a outras questões. Aeroportos!
Meu contato com aeroporto começou por causa do trabalho, desde o primeiro vôo, na verdade, o primeiro se desdobrou em quatro; já na primeira viagem fiz 2 conexões indo e duas voltando, o que significou quatro vezes emoçao. Sobe, desce, sobe, desce e todo o protocolo: videos e demonstraçoes de segurança, a voz do piloto, as balas, o lanche, a turbulência, tudo. Tudo inclui a sala de embarque, que é aquele espaço no aeroporto que todos os passageiros vão antes de entrar no avião, ali rola uma magia sabe como é? Fui descobrindo que os minutos que antecedem o vôo sao reveladores, primeiro no quesito emoção, é impressionante o que o medo de voar faz com as pessoas, alguns desparam a falar, outros se calam, outros tem suor nas mãos e os mais despreocupados chegam a dormir na poltrona, quase perdendo o vôo. Outro quesito interessante é a situação de sociedade que está instaurada, políticos, pessoas públicas, famosos, artistas, estão sempre nestes lugares indo de um lugar a outro e quando você participa deste momento, compartilha do instante com cada um, muitas vezes a sorte ou o azar te coloca na poltrona ao lado de quem você gostaria de conhecer, assim … meio sorte, meio mágica.
Aeroportos já me colocaram cara a cara, ou lado a lado com diversas pessoas, dos famosos consigo até lembrar alguns nomes, Fernanda Montenegro, Oscar Filho, Zeca Camargo, Hebert Vianna, Pelé, Ronaldo fenômeno, KLB, Denise Reis, Denise Stoklos e por aí vai… Aqui para o Rio de Janeiro desta vez, vim, quase lado a lado da queridissima Cristina Pereira, atriz consagrada na televisão brasileira e no teatro. Participou do Teatro de Arena, fez Tv Pirata, Vereda Tropical, Sassaricando!!! novelas, series e espetaculos que fizeram parte da minha vida. Quando a vi, tremi, coraçao foi na boca, minha leitura parou e o Hebert Vianna passando ali do lado nem fez pressão em mim! Eu queria conversar alguma coisa com a Cristina, eu precisava! Ela fez Vamp!!! Enfim, me segurei e depois de ensaiar várias aproximações consegui conversar, um papo rápido,”o que tem feito em teatro?” ela me respondeu muito educada, fomos conversando até o interior do avião,ficamos eu na fila 6 ela na 4 e voamos juntos, cheguei a pensar “se o vôo cai, serei conhecido como quem morreu ao lado da atriz Cristina Pereira de Tv Pirata!” é cada coisa que a gente pensa né?
Como é que a gente pensa isso? Se alguem me dissesse lá na infância que eu um dia pegaria o mesmo vôo com aquela atriz alí da tv, indo para o Rio de Janeiro e que chegando no aeroporto eu veria o Cristo Redentor de braços abertos igual na novela e que iria me apresentar na Caixa Cultural por quatro dias e que iam me esperar no aeroporto com um cartaz escrito meu nome e que um taxi me levaria ao hotel e que no caminho eu veria um outdoor com meu nome indicando o dia da apresentação eu riria muito alto e pediria para contar a proxima piada, mas como ninguem me disse isso, nunca imaginei que pudesse acontecer, mas aconteceu, nessa ordem :)
Pela quarta vez na cidade maravilhosa, a Lapa me recebe em dia de Copa do Mundo com muitas cornetas e uma tarde esplêndia. Saravá!
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PRIMEIRO DIA: 02|06|10 - ESTOU EM SALVADOR - BAHIA
Oito e meia da manhã eu deixava o Cerrado em direção ao aeroporto de Congonhas na cidade de São Paulo que por sinal deixou saudade, desde quando saí da Vila Madalena para morar novamente em Minas em 2006. A solidão de São Paulo é uma das coisas que mais sinto falta e que um dia – mais cedo ou nem tão tarde – precisarei re(a)ver. Com algum atraso cheguei em Congonhas mas não estava nada pronto, precisei pegar o Bus Service da TAM que fica bem na saída do aeroporto atravessando a rua. De lá direto para Guarulhos, quase uma hora de viagem sem atribulações, cheguei a dormir um pouco, chegando em Guarulhos fiz questão de despachar bagagem logo para me liberar as mãos para almoçar; esse aeroporto assim como qualquer outro internacional encanta pela diversidade de idiomas, pessoas, rostos e bagagens por todos os lados. Despacho feito é hora de comer, tudo em aeroporto é claro, e um sanduíche frio de chester com um refrigerante me custou algo como doze reais. As 14h00 estava eu entrando na aeronave, um modelo 320 da TAM muito grande, fiquei no 23E, por fila são 10 pessoas divididas em três do lado esquerdo, três do lado direito e quatro no miolo, ali estava eu. Agüentar duas horas de viagem é tranqüilo, ainda mais quando se pode assistir a filmes, documentários e ouvir uma programação musical de bom gosto como aconteceu comigo, o que realmente irrita é a companhia, do meu lado duas crianças que gritaram, mexeram e fizeram toda a arruaça possível no tempo de vôo. Cheguei de óculos no rosto tapando o cansaço num clima de vinte e oito graus, calor agradável, foi quando caiu a ficha “Sim! Estou na Bahia”.
O taxista me levou logo ao hotel e já aproveitei para puxar um briefing com o taxista para meu programa de tv, já gravei uma entrevista e tudo mais, fiz algumas poucas imagens do engarrafamento e da chuva que caiu sobre Salvador, deixando o transito mais lento do que o normal – fiquei sabendo – escurecendo a cidade logo cedo as 17h00. Fui agraciado com um hotel muito bom, fiquei hospedado no Sol Victoria Marina que tem uma vista maravilhosa e fica muito bem localizado na Cidade Histórica, próxima de muita coisa inclusive da casa de Ivete Sangalo – segundo o taxista, fato que me fez rir um pouco – cheguei ao quarto depois de um rápido check in e me entreguei a um banho merecido numa ducha que meu amigo! Foi merecida e necessária. Bem na verdade que cheguei a Salvador cheio de preocupações, deixei algumas coisas em Minas que precisavam da minha atenção, mas agora o tempo é aqui e tenho que me concentrar nas três apresentações que tenho pela frente. Jantei no instituto Goethe próximo ao Hotel, foi quando decidi ficar no hotel Victoria Marina ao invés de ir ao Conexão Vivo rolando numa praia próxima.
O melhor das viagens são os bons imprevistos, para minha sorte um amigo de Curitiba-PR estava hospedado no mesmo hotel que eu aqui em Salvador e me ligou com um convite para irmos beber uma cerveja no Acarajé da Dinha, chegamos lá não sem antes termos percorrido a orla, passado pelo imponente Farol da Barra, por bares cheios de gente e enfim chegar ao Largo onde fica a barraca. Cevejas mais tarde chegamos a San Sebastian, uma baladinha moderna, bem divertida e decorada, com um som até alto demais para o local, mas que me fez ter saudade de tocar um pouco. Esse é o problema de se ser dj, tenho a impressão de que djs só se divertem quando estão tocando, eu não durei nem ate duas da manhã, acabei deixando minha companhia lá e indo para o hotel. Vinte reais mais pobre chego em minha cama! Salvador chegou em mim e eu só estou percebendo agora, quando durmo.
SALVADOR BAHIA - SEGUNDO DIA
3 de Junho de 2010
Café da manhã no restaurante do hotel com vista para o mar, seguindo o olhar quase alcanço o atlântico. Saudades a parte e trabalho pela frente, sigo para o Mahi Mahi um bar aquático, desço um bondinho e alcanço o mar, algumas fotos e vídeos depois estou eu andando para o centro da cidade, resolvi ir andando reto ate ver onde dava e assim fiz ate meio dia, quase cheguei ao Pelourinho – me disseram – fui até o espaço unibanco de cinema. Após almoçar no Goethe Institut – arroz, batata souté, filé ao molho madeira, salada com sweet grape e acelga, molho quatro queijos e uma coca cola - fui para o espaço Caixa Cultural montar meu equipamento de som e luz para o espetáculo de amanhã isso durou ate as 18h00 voltamos com chuva nas costas e isso me deixou bem sem graça para fazer qualquer coisa, apaguei no hotel ate as 20h00 para jantar no Goethe.
Comi um sandubinha chamado Obama e na mesa fui convidado a ir à uma festa de Oxossi no terreiro de candomblé no bairro de Cabula – bairro negro habitados antigamente por pessoas vindas da Angola e do Congo - meia hora depois chegamos, a festa tinha começado as 20h00 e quando chegamos já tinha filhos de santo rodando no terreiro que estava abarrotado de gente, homens do lado esquerdo de quem vê e mulheres do lado direito. Este é o terreiro mais tradicional de candomblé na Bahia, guiado pela sacerdotisa mor Mãe Eliza – nação Keto - há oitenta e cinco anos, ela foi reconhecida pela Universidade Federal da Bahia como Honoris Causa.
Muito interessante perceber que o espaço tem muitas pequenas casas, cada uma de um santo. Uma pausa e comecei a ver pratos de comida chegando de mão em mão, era a hora da comida e quem quis teve como comer e beber no terreiro, ficamos sabendo do retorno dos trabalhos ao toque constante do atabaque, voltamos para receber os Orixás paramentados, dessa vez dançaram, juntos e separados. Infelizmente eu não conheço a religião a ponto de saber o que estava acontecendo a todo momento, mas era muito claro a estrutura do ritual e que cada musica acionava uma diferente atitude dos iniciados naquele ritual.
Voltei agora para o hotel e corri para terminar esse post e para dormir mais cedo, preciso estar acordado cedo para passar uma manhã agradável no pelô
SALVADOR BAHIA - TERCEIRO DIA
04 DE JUNHO DE 2010
A manha começou com um “bolinho de estudante” que eu comi no hotel, parece uma massa de tapioca frita, bem gostoso, mas é aquele tipo de massa que você fica mascando sabe? Enfim … Decidi conhecer o Pelourinho nessa manhã, peguei um táxi e pimba me deixaram lá no inicio do bairro. Pelourinho era um tronco de arvore que ficava em praça publica onde os negros apanhavam, o tronco foi tirado da praça por abaixo assinado e levado para o Museu da Cidade e no lugar do tronco ficou apenas um quadrado concretado que ainda serve de memória aos baianos e ao mundo. A praça é bem famosa e serve de entroncamento para quem decide descer a ladeira em busca de explorar o bairro que é todo colorido e que me lembrou muito o bairro La Boca em Buenos Aires, as paredes coloridas, cada uma de uma cor, maquia um pouco a simplicidade e pobreza do local. Aqui como em muitos lugares do Brasil, a falta de saneamento, a simplicidade do povo e muitas vezes os conflitos sociais, tornam-se material de venda, comercio e turismo que acaba por movimentar parte desse centro histórico.
Os Soteropolitanos – baianos da capital – são bem receptivos, no Pelô, mas também insistentes com os turistas, as ciganas querem ler as mãos, as baianas querem tirar fotos, os guias querem emprego temporário e os ambulantes fazem a festa, chega a cansar qualquer um só de ter que atravessar uma rua, mas aos poucos a gente vai se acostumando e dizer não e a passar reto, infelizmente tem que ser assim. Como eu estava dizendo, a praça do pelourinho ficou muito conhecida por causa do clipe do Michael Jackson “They Dont Care About Us” gravada aqui, a sacada da casa azul – camarim temporário do cantor – serve de plataforma para turistas com câmeras assim como outras partes do local. Os guias não cansam de dizer que “nessa esquina o Michael escorregou” “nessa lixeira ele se apoiou” historias sobre o negro que ficou branco não cessam.
Descendo a ladeira vi muitas igrejas, algumas lindas por dentro outras maravilhosas por fora, a maior parte não é permitido tirar fotos ou filmar, então fiquei mais quieto mesmo, entrei aonde era mais fácil o acesso, muitas igrejas e basílicas tem as portas frontais fechadas e as laterais abertas, só fui descobrir isso porque meu guia me contou, senão eu teria passado direto em muitas delas. E aqui é assim, se você anda sozinho sem nenhum cicerone, facilmente passam paisagens que você não fica sabendo além de se perder porque as ruas são todas muito parecidas, as lojas costumam ter o mesmo tipo de material a venda, artesanato, madeira, pescados, conchas, tecidos, bolsas, artigos de decoração para casa, quadros e muito mais que parece ter saído de uma só fabrica porque são idênticos de loja em loja, alteram somente em valor e estado de conservação.
O Centro Histórico está na parte alta da cidade e é todo vigiado por guardas municipais, militares e câmeras de segurança, já a parte baixa onde fica o Mercado Modelo já é outro esquema. Para descer é preciso pagar quinze centavos e pegar o Elevador Lacerda construído para levar a população setenta e cinco metros abaixo para a cidade baixa, o elevador carrega quinze pessoas e em menos de dez segundos nos deixa de cara para o Mercado Modelo envolto na Baía de Todos os Santos. Ali já encontramos bem menos policiamento e é importante ficar de olho em câmeras, celulares e o que mais chamar atenção. A Baia de Todos os Santos tem 1.052 kilômetros quadrados e quarenta e dois metros de profundidade, esse nome foi dado um ano depois do Descobrimento do Brasil em 1501 quando os portugueses vieram reconhecer a nova conquista, era primeiro de Novembro, Dia de Todos os Santos, na religião católica, portanto ficou assim nominada.
O Mercado Modelo é um complexo com mais de duzentas lojas de artesanato, bebidas, comida típica, instrumentos musicais e muito mais que eu não pude ver com atenção mas que enchem os olhos dos turistas e esvaziam seus bolsos também. Capoeiristas estavam dançando ali assim como as tradicionais baianas paramentadas davam seu axé. O Candomblé é aqui muito forte, os postais são cheios de Orixás, os quadros, os motivos das pinturas, as esculturas, lembranças de bolso entre outros presentes, carregam figuras como Omolú, Exu, Iemanjá, Nana e todos os outros Orixás, cultuado e/ou admirado por quem passa pelo Mercado. Retornei à cidade alta já pensando em ir embora, meu pé estava doendo bastante e mesmo o sol não castigando tanto, o couro já estava sentindo também, tirei algumas poucas fotos, comprei postais, em média um real e cinqüenta centavos e fui para a praça da sé para achar um táxi – na chuva – e voltar ao hotel.
A tarde fiquei mais quieto, editando pro Blix e montando textos, as 16h00 fui a caixa cultural, espaço mantido pela CAIXA para projetos culturais onde me apresentei as 20h00, jantei e vim para o laptop escrever este texto e postar ainda hoje. Conhecer este pedaço do Brasil é fascinante, mas tenho saudades de Uberlândia! Saudades do meu cachorro, da minha casa, das pessoas que eu gosto, ir é bom mas voltar melhor ainda, segunda-feira estou de volta ao Cerrado.
SÃO LUIZ DO MARANHÃO - MA
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DIARIO DE VIAGEM: PRIMEIRO DIA EM SÃO LUIS NO MARANHÃO
PRIMEIRO DIA: 17|05|10
Acordar as seis da manhã é algo fora de cogitação mas entrou no meu universo hoje, quando pulei da cama com uma ligação do Mac, eu havia esquecido o carregador do meu celular no trabalho e por isso estava sem o Snooze Alarm! Uma vez acordado já pulei no banheiro e de lá saí pronto para o Aeroporto. Check in tranqüilo, sala de embarque, “atenção passageiros com destino a Brasília, embarque imediato” bom demais! Dentro do avião “atenção tripulação, portas em manual” excelente! De Brasília direto a São Luis do Maranhão, com rápida parada e Imperatriz. A primeira sensação é também a mais óbvia, “que calor é esse!!!” Saí de Minas com frio, usando um abrigo inclusive, mas logo percebi que eu tinha trazido algumas blusas de frio e calças jeans para darem um passeio interestadual. O receptivo nos levou à Pousada Portas da Amazônia, muito atraente o local, chão de pedra, inclusive o piso do quarto é o mesmo de todo o quarto, quarto com ar condicionado – super necessário por aqui – e internet sem fio! Ótimo. Ponto negativo, água quente! É inexistente água quente nessa pousada e fui saber logo depois que é difícil achar água quente no banho de qualquer maranhense, para mim um pesadelo, mas sonhos à parte o dia se seguiu e fui ao Centro de Criatividade Odylo Costa Filho, prédio antigo que abriga um cinema, salas de exposições e o Teatro Alcione Nazaré.
O entorno deste prédio é também tão antigo quanto ele, algumas praças vazias e seguindo reto o olhar consigo mirar a Maré! Um mar que seca e volta a encher de seis em seis horas, quando a maré está baixa, pode se ver um sem tamanho de lama. São Luis é quase todo mangue, solo pantanoso, e quando volta a encher torna-se caminho para pequenas embarcações. Fui jantar na pousada e não tive problemas com a comida, o cardápio muito próximo do de Minas tinha Arroz, Feijão, Peito de Frango, Salada e Farinha, aqui tudo se come com farinha.
Terminado o jantar fui junto com minhas amigas Tieta e Camila para o ensaio do Cacuriá de Dona Teté, nacionalmente conhecido! Fiz a primeira gravação para o programa Blix do Canal da Gente e por mais de duas horas fiquei maravilhado com o ritmo, a vontade, alegria e malicia dos bailarinos. Voltando para a Pousada vim ouvindo o taxista me contar da noite maranhense e de como os guetos se encontram de sexta a domingo. Antes que eu chegasse ao destino final, passamos em frente ao Teatro Arthur Azevedo e ouvi uma frase que grudou na minha cabeça! Segundo o taxista aquele lugar – o teatro – era por dentro “Além do Poder!”
Verei amanhã, pensei.
.MARANHÃO SEGUNDO DIA | DIA 18|05|10
Dormi muito mal. O calor me atravessou, o barulho também. Estou hospedado no quarto trinta e seis embaixo de tudo, quase um porão, o local todo é de madeira antiga, o que faz com que os passos no apartamento de cima seja ouvido quase como um rojão aos ouvidos de quem tenta dormir embaixo. Acordei direto para o banho, do banho para o café da manhã. Interessante como as construções antigas se justifiquem por si próprias. A arquitetura velha, antiga, justifica as folhas das arvores caindo no seu prato enquanto você come, ou do mofo em algumas paredes ou mesmo dos mosquitos aqui e ali. A Pousada é uma opção diferente do hotel, principalmente para quem quer se misturar, para quem aceita estar aqui, no meio de tudo e fazer parte de tudo, faz bem, respirei quase fundo e tomei meu leite, feliz por estar aqui.
No restaurante onde se toma café aqui, tem uma arvore grande que chega ao céu, portanto o miolo do restaurante é a céu aberto, o que transforma tudo em poesia, senti falta de comer algum petisco típico contudo não me chateei porque tive conversas atípicas com meia dúzia de gentes, algumas de Curitiba, alguns do Ceará, nas mesas ao lado, duas italianas, daqui a pouco um casal de franceses, logo atrás um dinamarquês, na árvore, metros acima, uma preguiça abraça a árvore como quem abraça a última árvore do mundo.
Almocei e fui ao Teatro Arthur Azevedo, mas como entrei pelos fundos acabei não vendo por dentro, vou tentar na quinta-feira. Uma aula começou e desci para ver um pouco como a cidade se comporta durante o dia, peguei a rua do comércio chamada de Rua Grande, é como um grande centro velho com ruas de pedra, barraquinhas por todo o lugar, uma longa avenida – que deveria ser um calçadão mas não é - onde todo mundo compra e faz barulho. Desde marcas conhecidas nacionalmente até barracas bem regionais mesmo, encontra-se quase de tudo, vi perucas, óculos, roupas, bebidas, raízes, usados, eletrônicos, livros e por aí se segue a lista. Fui interrompido por uma chuva que já estava ameaçando o centro desde a manhã de hoje. Antes que eu me pudesse me abrigar em alguma marquise fui tomado de surpresa, a chuva é morna! Como o clima! Finalmente tive meu banho quente! A chuva foi rápida e aproveitei para entrar em uma loja de artesanato que inclusive é bem forte aqui em São Luis. Comprei alguns chaveiros e postais que pretendo presentear tão logo chegar a Minas.
Saí dali e voltei a Pousada, tudo por aqui se faz, subindo ou descendo uma dezena de ladeiras, menos íngremes que as de Ouro Preto mas tão bonitas quanto. Pausa para uma rápida soneca e vamos andar mais, dessa vez pelo Mercado Central bem próximo do Centro de Criatividade que fui ontem. No mercado encontra-se muito camarão em exposição, fresco, recém pescado, outros mariscos, frutas, geléias – uma de pimenta que me deu muita vontade experimentar – artesanatos e algo que fiquei impressionado, açaí puro! Em Minas Gerais estamos acostumados à tigela de açaí ou ao suco, mas sempre doce, aqui não, é um gosto forte que você adoça na hora dependendo do seu paladar. Junto do açaí mistura-se farinha (uma diferente, dura! Dura! Dura!) e – pasmem – camarão. Aqui camarão é aperitivo para passar no açaí, não tive estomago para isso.
Trouxe do Mercado, alguns refrigerantes, o famoso JESUS é um refrigerante rosa com leve sabor de canela, propriedade da Coca-Cola, produzido apenas no Maranhão e somente aqui é vendido. Obviamente que já coloquei na mala doze pequenas garrafinhas, conhecidas por “Jesuzinha” … a nossa “Pitchulinha”. Na saída do mercado ainda consegui comer um bolo de macacheira muito gostoso e comprei alguns doces de coco, feitos em Alcântara, cidade próxima, o doce foi criado para receber o Imperador que nunca veio à Alcântara, assim como dois palácios que foram construídos apenas para a chegada do Imperador. Hoje são espaços turísticos e assunto para todos os moradores.
Estou de volta à Pousada e preciso descansar, amanha cedo tem Lençóis Maranhenses e espero ter muita coisa boa pra contar.
.maranhão terceiro dia
Dia 19|05|10
As quatro e meia o telefone toca, é o cara da recepção com aquela voz maranhense dizendo “acorde!” pulei da cama e em menos de quinze minutos eu já somava no micro-onibus que levou não mais que dez turistas – todos gringos menos eu – à cidade de Barreirinhas, quatro horas de São Luis. A Pousada fez todos os contatos e acertou tudo, eu pagaria o transfer ate a cidade e de la pagaria o passeio ate as Dunas ou aos Lençóis Maranhenses. Ao todo gastei cento e cinqüenta reais, setenta no transfer, cinqüenta no passeio e o restante em alimentação. Chegando na Ecos Turismo em Barreirinhas já se tem noção do que nos espera, a cidade é muito pequena e é a porta de entrada para quase todos os municípios que compõe os lençóis maranhenses, banhada pelo Rio das Preguiças, tem areia por todos os lados, ruas irregulares e muitas agencias de viagem. Esperei pouco até que a Hilux chegasse para nos levar, durante a espera ajudei na tradução do guia para uns franceses que enfrentariam dois dias de viagem com um guia que não fala inglês muito menos francês, fiquei apreensivo por eles, mas segui meu caminho. Até os lençóis tivemos que enfrentar muito chacoalha-chacoalha, altos e baixos e pontes. Para a atravessar o Rio, vamos de balsa, mas a viagem dura pouco. Na Balsa uma senhora nos pergunta de onde somos e ela adverte que os lençóis estão baixos, “pouca chuva” disse ela. A primeira grande aventura para mim foi quando pela primeira vez vi um carro nadando! Rs … A hilux entrou numa imensa piscina d`água formada pela chuva, e atravessou aquilo em menos de 4 minutos, fiquei impressionado e ao mesmo tempo amedrontado, passamos por poças menores mais a frente, nosso guia o Erick disse que já havia ficado preso ali, vez ou outra, e que sempre que acontece isso ou conta-se com a ajuda dos outros turistas ou o guincho deve vir buscar. Carro pequeno naquela areia fofa não anda. Nem tente.
Quarenta minutos de areia, curvas malucas e poças enormes chegamos aos lençóis, a primeira vista já impressiona e já vale qualquer esforço, como disse o Beto – amigo de aventura nesse dia – essa paisagem “vale por uma oração”. Começamos a andar na areia e o quanto mais se pisa menos sai do lugar. A areia é muito fina e as dunas muito altas, quando conseguimos chegar ao cume da primeira duna, o sol já castigava e o suor já descia pelas temporas. De cima um sem fim de areia e mais areia, de todos os lados, é um deserto, desses de filme, uma locação a céu aberto, um paraíso na terra. Entre as dunas algumas piscinas naturais, algumas delas tem aqüíferos o que as mantem “vivas” o ano todo, outras dependem exclusivamente da chuva. Segundo nosso guia, aqui tem apenas duas estações, o verão e o inverno, cada uma com duração de seis meses, nos primeiros seis há chuva quase todos os dias e nos últimos seis meses do ano o sol não para de brilhar. Eu sou um cara que gosta de água mas nem tanto, sabe como é! Coloquei os pés na água esperando que estivessem muito geladas, talvez por traumas anteriores! Mas o que encontrei foi sem duvida a melhor temperatura de água que já encontrei em vinte e oito anos de vida. Não é fria, não é quente, não é morna. Ao sair da água não se bate o queixo de frio, mas também não é aquele corpo quente das águas termais de Goiás por exemplo, é algo único, talvez indescritível.
Ficamos em basicamente três lagoas, a primeira, em tom esverdeado onde gravei o som da água e a paz. Éramos somente quatro pessoas naquela lagoa, a sensação é de totalidade, você não está sozinho, está como todo mundo, num silencio, numa paz. Dali conhecemos outras lagoas menores e chegamos a famosa Lagoa Azul, realmente com tom azulado a lagoa é rasa em toda sua extensão, é comum ver crianças brincando bem no meio dela sem preocupações. Animais aqui são raros e vistos mais a noite, como cobras, escorpiões e lagartos. No lago vê-se um tanto bom de vitória-régia e esta é uma lagoa com mais movimento, umas vinte pessoas, moradores de São Luis passando um tempo. Andando um pouco mais chegamos a lagoa mais fascinante para mim a Lagoa dos Peixes, ao entrar na lagoa varias Piabas te dão as boas vindas, cheguei a ficar com medo, porque os peixes nadam muito próximos de você, estão querendo comida e por isso ficam muito próximos, é possível passar a mão no cardume. Quando joguei pedacinhos de bolacha na água, um sem numero de peixes quase me empurrou para fora da água. Muito bonito e fascinante, ficamos ali em banho-maria por uma meia hora, tomei meu refrigerante Jesus já quente! E começamos a voltar tudo aquilo. No Deserto não há atalhos, descobri isso bem cedo!
A despedida de um lugar como esse é sempre dolorida, da vontade levar um pouco com você, mas eu trouxe, na memória, nas palavras e nas historias. O lugar é limpo e desabitado. Falta um cuidado ainda maior por parte da Prefeitura e do IBAMA que não se manifestam, no mais, a vida se segue e muita gente passa por aqui. Voltei para São Luis não antes sem tomar um suco de Bucuri no Descanso do Rio, lanchonete Beira Mar em Barreirinhas e ouvir as historias das viagens do Beto. Uma passada rápida na Pousada Da Areia filiada Lonely Planet e embarco para São Luis. Chegando aqui, tomei banho e já ouvi um tambor, era a velha guarda aqui na esquina tocando tambor e o samba comendo alegre! Alguns hippies, muita cerveja e papo bom. Meu olho denotava meu cansaço, fui pro quarto descansar e sonhar com os lençóis.